top of page
  • Black Twitter Icon
  • Black Facebook Icon
  • Black Instagram Icon

diários E RESENHAS

Resenha Crítica:
“Ele está no meio de nós” 
O Romance na cena da Epifania.
Adel José Silva*
 
 

Para quem leu O Marceneiro, a Última tentativa de Cristo, do grande provocador Silas Corrêa Leite, perceberá um fio condutor trançando uma trilogia esperada na obra Ele está no meio de Nós. E certo, que a obra ocupa o espaço do primeiro volume de uma trilogia que pulsa. 
O existencialismo mítico, radical e provocativo, retornado em O marceneiro, já vigorava, nos fornecendo um painel capaz de cativar o leitor. Nesta obra, o narrador entregando-nos Saulo, ou Paulo, protagonista do Romance.  Aqui, temos um declarado paralelo entre o protagonista e Paulo de Tarso, o reformulador, e reconhecido por alguns, como o inventor do Cristianismo, conhecido por nós, hoje. 
A vida do protagonista Saulo, assim como seu duplo histórico, é marcada pela Epifania o encontro com o fabuloso, o indizível, a revelação. 
Silas Corrêa leite constrói no cerne do caos da existência sua poético-prosa-militante. Com isso, esclarece-se que por militante não se quer dizer panfletaríssimo, em nenhuma hipótese.  Silas é antes de qualquer silaba escrita, uma escrita que busca qualificar a leitura. 
E exige uma disposição ao leitor atento. É neste ponto, que a obra de Silas se torna profundamente atual e contemporânea. Se, por um lado, encontramos em seus escritos rastros de uma dívida, com todo pacote do Modernismo nacional da primeira metade do século XX. Ler Silas, é reencontrar, em certa medida, a antropofagia de Oswald, tanto quanto o experimentalismo de Rosa e Lispector. Por outro, entretanto, encontra-se um autor nascido no caldo prolixo e complexo do ciberespaço, do lócus-virtual. E é diante desse panorama, pós-moderno e profícuo, complexo e arrojadamente polarizado, que surge a voz de Silas Correa Leite, estabelecendo seu dialogismo radical. É isso, a obra de Silas radicaliza no diálogo. É um autor, acima de tudo, em busca de um leitor. 
Essa diálogo com o leitor, de certa forma, inscreve o leitor em uma campanha, quase como se a obra compartilhasse um sentido existencial que se torna escola, na qual o leitor milita, conspirando e costurando a trama em paralelo ao  autor, e isso, Sias o faz me  principalmente em  “Campos de  Trigo Com Corvos”, (2008), obra de contos finalista do Prêmio Telecom/Ficções, Portugal, ou  a que tem sido aclamado como sua obra-prima, Goto, Romance, A lenda do Reino do Barqueiro Noturno do Rio de Itararé, (2014-Clube De Autores). Cito como símbolo metonímico a obra poética, nervosa, tanto quanto, sua prosa mais cativante, nas quais, esse traço vigora com performance exuberante. 
Na obra, “Ele está no Meio de Nós”, percebe-se movimento diferenciado em relação a essas duas citadas. Se, em Goto, e Campo de Trigo, temos um movimento intimista de um pesquisador, no qual o exercício da linguagem experimental é farto e delicado, nessa obra, tanto quando em O Marceneiro, temos um contraponto, no qual a comunicabilidade radical é a tônica. Não que, com isso, não haja jogos rítmicos, ou brinquedos de enredo que busquem o experimento nessas últimas obras. Claro que há. 
Vejamos um exemplo, o foco narrativo em “Ele está no meio de Nós”, que ora se organizam em 3º pessoa, ora se revelam, principalmente no momento da Epifania, em 1ª pessoa, gerando dialética, que produz movimento da intimidade, ou subjetividade da personagem, para a exterioridade do corpo visto a distância. As condições provocadas no leitor, podem variar de acordo com a recepção leitora. O leitor, escolherá, o efeito sanfona, dentro-dentro- fora, ou o efeito, bipolar, estanque, fora agora, dentro agora, separadamente. De forma, ainda que sutil, temos uma aqui, variação do estilo experimental do autor. 
De toda sorte, o leitor, quer seja ele, um exigente exegeta, ou um diletante e despretensioso alquimista do deleite, encontrará em “ Ele está no meio de nos” um thriller  que mistura a condição  mística, o sobrenatural, o amor, a aventura, num jogo no qual a peripécia nutre  em ritmo a descoberta de si, a busca espiritual no seio da cidade paulista,  tendo como palco, de um lado, ora  Itararé, berço  poético e símbolo mítico da cidade sagrada, escolhidas como a Xangri-lá, pelo autor, ora o centro, a Avenida Paulista, símbolo da Babilônia, no qual todo desfecho se dá, construindo assim, uma narrativa sobre o viver radical, um viver que não tolera os mornos, os frios, os que passam pela vida sobre muros, construindo muros, muros calhordas, que muito mais que separar e restringir, amargam a vida, torando-a insossa e desprendendo-a do sentido. 
É contra o niilismo barato, a proposta de carregar sobre os ombros a tortura da culpa sem parteira, do barateamento do tempo em troca da opção pelo ódio, pelo tédio, pelo ressentimento, que Silas apresenta seu Romance, que se pretende antídoto; remédio capaz de abrir um fio reflexivo na alma, e que nos faça, em sociedade ao protagonista, experimentar a Epifania, que nos é devida. 

ADEL José Silva, professor, blogueiro, agitador lítero-cultural, mestre em literatura pela USP-Universidade de São Paulo
 

Referências
BOSI, Alfredo. Sobre Otto Maria Carpeaux. In: Entre a literatura e a história. São Paulo: Editora 34, 2013. p. 405-421.
BRASIL, Luiz Antonio de Assis; MOREIRA, Maria Eunice; ZILBERMAN, Regina (Orgs.). Pequeno dicionário da literatura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Novo Século, 1999.
CARPEAUX, Otto Maria. Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do MEC, 1949.
CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. São Paulo: Leya, 2011. v. I-IV.
CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios reunidos: 1946-1971. Prefácio de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Topbooks; UniverCidade, 2005. v. II.
CARVALHO, Olavo de. Introdução a um exame de consciência e nota a esta edição. In: CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios reunidos: 1942-1948. Rio de Janeiro: Topbooks; UniverCidade, 1999. v. I, p. 15-73.
CRONOLOGIA da vida e da obra de Otto Maria Carpeaux. In: CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios reunidos: 1942-1948. Rio de Janeiro: Topbboks; UniverCidade, 1999. v. I, p. 74-76.
DELFOS Espaço de Documentação e Memória Cultural. Manoelito de Ornellas. Acessível em: http://www.pucrs.br/delfos/?p=ornellas. Acesso em: 30/10/2013.
FERNANDES, Ronaldo Costa. História da literatura ocidental: a obra monumental de Otto Maria Carpeaux. In: CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. São Paulo: Leya, 2011, v. I. p. XIX-XLIII.
GERTZ, René. Intelectuais gaúchos e o Estado Novo brasileiro (1937-1945). História: debates e tendências. Porto Alegre, v. 13, n. 1, p. 19-32, jan./jun. 2013.
MORAES, Marcos Antonio de. Mário de Andrade: Epistolografia e processos de criação. Manuscrítica, Vitória, n. 14, p. 65-70, dez. 2006.
NICKISCH, Reinhard M. G. Brief. Stuttgart: Metzler, 1991.
ORNELLAS, Manoelito de. Gaúchos e beduínos: a origem étnica e a formação social do Rio Grande do Sul. 3.ed. Prefácio de Érico Veríssimo. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1976.
PROVÍNCIA de São Pedro: 1945-1957. Catálogo e texto. Porto Alegre

Fanáticos por Itararé

Itararé, como toda cidade histórica - e de divisa de estados - tem curiosidades fantásticas dos chamados fanáticos por Itararé, uma boa trupe de boêmios, artistas, palhaços, mentirosos, inventores do inexistente, como causos da ruiva argentina radicada na cidade que teria engravidada de extraterrestres, outra senhora polaca que tinha três seios, outra com seios nas costas, além da bravata da tal batalha de Itararé que tomou assento como piada sobre a cidade, mas também tem coisas que só acontece lá, ou aqui, coisas do arco da velha, conversa pra boi dormir, o tal do popularesco contar palha.
Mas teve também o caso do ator estreante que fez o judas na peça sobre a paixão, teatro local, e na hora da cena morreu de verdade, enforcado mesmo por um fatal acidente de mal preparo cenográfico, história real, triste e fatal  e que correu mundo...
Pra não dizer da tal procissão de cadáveres no dia dos mortos, que só os sensíveis espiritualizado veem, tropa de soldado mortas nas revoluções que a cidade e região vivenciaram, de um lado e de outro, e que marcham pela rua São Pedro, batendo os ossos nos paralelepípedos, caveiras que chegando perto do cemitério lágrima do céus  que sob1em nos calços das nuvens quadradas que o recebem e assim os espíritos (ou fantasmas) desaparecem na terra. Ver pra crer.  Escadas de Jacó em Itararé? A Escada de Jacó (em hebraico: סֻלָּם יַעֲקֹב; romaniz.: Sūllām Yaʿăqōḇ) refere-se à escada mencionada na Bíblia em Gênesis 28:10-19, que se caracteriza o meio empregue pelos anjos para subir e descer do céu. Foi imaginada pelo patriarca Jacó num dos seus sonhos, depois de ter fugido da confrontação com o seu irmão Esaú. Quando Jacó teve essa visão durante o sono, de uma escada, cujos pés repousavam sobre a terra, e cujo topo chegava aos céus. Anjos continuamente subiam e desciam através dela prometendo-lhe a bênção de uma numerosa e feliz posteridade. Quando Jacob acordou, ele estava cheio de gratidão, e consagrou o local como a casa de Deus. Na lapa de pedra da gruta da santa do rio Itararé, deveriam  colocar uma placa:

SANTA ITARARÉ DAS LETRAS

Itararé de tantas fés
E belezas de encanto
Tira as sandálias de teus pés
Porque o lugar que estás é santo.

Pois também tem a bela história das andorinhas bentas, no parque ecológico da gruta de pedra nas lapas da Barreira, uma beleza só, graciosidade angelical que fechou uma edição do Fantástico da Rede Globo (que até escreveu uma novela sobre a aparição da santa Nossa Senhora de Itararé), e todo dia as 6 horas da tarde – hora do ângelus – milhares de andorinhas fazem verão, verões rasantes no céu majestoso do lugar, com crepúsculos magníficos e que com ondas em forma de mãos em formato de oração, e depois adentram seus ninhais cavados nas rochas...

Um poeta pensou em postar um poema ao lado da gruta nas rochas de andorinhas:

BARREIRA (Procissão)


Num nicho de pedras, entre grutas e limo
Sobre um manto de água e um risco de sol
Uma Santa aprecia a novena dos pobres
E escuta a tristeza de estranhos devotos.

 E ouve andorinhas ariscas que cantam
Uma canção límpida como o fio da vida
E mãos de crianças catam milagres
Que as cores da tarde carregam para o céu.

 E vem um enfermo, um cego, um ladrão
E olham a lapa. E a Santa aprecia
Com pena, com medo, com mágoa da noite
Que um dia viu bela e um pecado fez dor.

 E entre uma cruz, as fotos, os dinheiros
E um toco de vela, um véu bebe as urnas
Mas vem um mendigo, sem mãe e sem preces
Recolhe os trocados e sonha o silêncio.

 A Santa não olha, não roga e nem crê
Apenas esboça um choro fantasma
Pois sofre e tem pena daqueles pedintes
E quer outro mundo. Outra Procissão.

PRIMEIRO DE ABRIL EM ITARARÉ

In Memoriam do Maé da Pêdra

Primeiro de Abril em Itararé corria boatos.
Maé da Pêdra no Bar do Fecha Nunca
deixava escapar em soluços:
-Morreu Tostão!
-Como foi? E a Copa do México?
-Acidente da Anchieta. Mulher e filhos.
Às vezes para variar “matava” Noite Ilustrado, o Velho Lua
JK, Cauby Peixoto, e, às vezes, incorrigível,
matava um conterrâneo famoso.

Era chegar Primeiro de Abril em Itararé nos idos de antigamente
E o Maé da Pêdra descia a Rua 13 de Maio
Chorando copiosamente feito um traste, um coió caipora
Como a “morte” do Vereador 2001 no lenço ranhento.

Cresci, fiquei brabo, calei a boca.
Fiz estágios (estragos) no purgatório dos incautos
Até que bendito dia de catar coquinhos
“Alembrei-me” do Maé da Pêdra
E perguntei para um amigo recém-inaugurado:
-Tem visto o Maé da Pêdra?

E o homem polaco de nome meio estrambólico
Caçou memórias virando o ford de melancias
Cismou com o rabo do “zóio”, estalou os dedos
E derramou; eternos segundos silenciosamente após:
-Maé de Pêdra morreu.

Quis brigar, quis xingar, quis chamar a “puliça”
(Na hora agá a gente chega ao extremo)
Mas depois, como uma pálida pipa creme desgovernada
Fiquei de cócoras e, coçando uma oxiurose imaginária, menti para mim mesmo:

-Primeiro de Abril!

Silas Correa Leite (Poema de 1978)
Santa Itararé das Artes, Cidade Poema

Namíbia design editora

Todos os direitos reservados

27 98182-5311

Vila Velha, ES

© 2026 by  Namíbia design editora

  • White Twitter Icon
  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
bottom of page